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08/07/2010

Resenha - Os suicidas (Antonio Di Benedetto)


 


Todas as mortes


Por José Renato Leite
Julho/2010.


O suicídio é um tema bastante denso, complexo e que o autor aborda de forma leve e criativa nesse livro. Embora difícil de ser tratado com leveza, Antonio Di Benedetto nos apresenta o assunto, em seu livro “Os suicidas” (Ed. Globo, 2005), com certo cuidado para não impactar e, para tanto,  transita, de um lado, pelo mistério e que nos remete aos romances de Aghata Christie , por outro, de uma maneira mais exata trazendo dados e comparando diversas visões sobre o assunto. É claro que as estatísticas são ultrapassadas.

A narrativa é esquizofrênica e, como tal, corremos o risco de nos perdermos em seus devaneios e alienações. A ótica da religião defende o temor e a culpa como fatores que interditam a pessoa sob o jugo de uma autoridade Suprema e Criadora. Já os filósofos colocam a questão ao nosso livre arbítrio. Para eles, cabe a nós perscrutar os fatos e optar ou não pela vida.  Penso que a maior inquietação de se afirmar tal escolha é saber que interrompemos o fluxo da vida, cujo dinamismo é constante.  Hoje podemos desejar a morte e amanhã poderá ser tarde demais para desfrutarmos da vida.

Todos os aspectos ou critérios apresentados no livro não satisfazem qualquer tentativa de explicar o suicídio. Não há explicações para o inexplicável. A natureza humana jamais poderá ser totalmente revelada. São vários os fatores que contribuem para tal ato extremo e, portanto, faz parte da condição humana, muito embora, desumano.

Para deixar a leitura mais amena o livro tem algumas passagens com um tom de lirismo, poesia e quiçá engraçado.

Na citação abaixo podemos observar a beleza da narrativa da morte:

“Cleópatra: Vem, feiticeira da morte! Desata com tua língua pontiaguda o nó da minha vida! Sê colérico, pobre animal venenoso, e acaba!

Carmiana: Oh estrela do oriente!

Cleópatra: Silêncio, silêncio Carmiana! Não vês o meu filho no seio? Está mamando de sua ama-de-leite adormecida...(morre)”.(Benedetto, Os Suicidas, 2005 Globo, pg. 151)

Acho que a solicitação mais fidedigna da pessoa que busca a própria morte é um grito de ajuda, de esperança e a busca de um sonho. Por outro lado, a “razão” muitas vezes nos trai e tenta encontrar as justificativas que ajude o indivíduo precipitar a cena fatídica.

Logo no início o autor trás a seguinte citação de Camus:  “Todos os homens sãos pensaram em suicídio alguma vez” . É reconfortante porque todos nós, em última instância, algum momento, já delegamos ao Criador retirar a nossa própria vida para fugirmos de alguma dor. Passar essa responsabilidade para quem nos deu a vida é minimizar o peso e angustia da escolha da morte.

O impasse entre a vida e a morte ou nosso paradoxo é conviver e aceitar a absoluta solidão frente às nossas escolhas. È por essa razão que, em todo ato de morrer, sobrevive à possibilidade do espanto diante da inapreensão da finitude e, simultaneamente, o gozo, fruto da alternativa do descanso absoluto.  Requer-se em toda atitude para a vida uma maior percepção da beleza e o sentimento de compaixão.

O esforço de Benedetto não foi em vão para nos falar de uma temática onde o foco é a morte. Faz cada um de nós refletir sobre um tema tão denso num formato mais leve. Assim mesmo, ao final da obra estamos com um gosto amargo na boca: tristeza, melancolia, frustração? O autor vai tecendo uma narrativa fragmentada até o clímax da última cena. Vida e morte, beleza, delicadeza e sutileza estão representadas no final:   

“...ela me chama e pergunta se há alguma coisa que eu não consegui fazer embora o desejasse muito”.

“...ocorre lhe perguntar o que ela gostaria de ter sido”. ...”responde, de um modo muito suave: a passageira de um avião que não descesse nunca”. (Benedetto, Os Suicidas,  2005, Globo, pg. 163). O grifo é meu porque simboliza a dificuldade de lidar com a realidade.

...”Encontro-a no living, está deitada no sofá e já está morta”.

...”Releio o papel que a Marcela sujeitou com o frasco dos comprimidos... “Não o faça, eu te peço.”

...”Devo me vestir porque estou nu. Completamente nu. Assim se nasce.”


Essa é a sensação diante de um suicida. Ficamos expostos, impotentes, frágeis e perplexos.

Por fim, penso que diante de escolha tão extremada devemos não questionar o por que mas, fundamentalmente, o para que? O porquê nos dá as razões para atestar o ato de morrer – qualquer resposta é estática. As respostas advindas do para que nos remete às possibilidades de criarmos alternativas para nossas dificuldades – é dinâmica, busca saídas. Não podemos esquecer que viver requer sempre uma atitude que priorize o movimento.

Gostaria de salientar que a questão abordada aqui resume todas as mortes, o suicídio de nossos prazeres, desejos, de nossos sonhos e esperanças.

26/09/2009

Romance Budapeste



Resenha por Solange Pereira Pinto


Visitar “Budapeste” pelos olhos verdes de Chico Buarque, que lá mesmo dizem nunca esteve, mais que uma viagem por sua fantasia é um encontro com o princípio de vida de um escritor; não somente do escritor autor ou do protagonista ghost writer, ora José Costa, ora Zsoze Kósta, mas com a necessidade de um princípio de unificação de qualquer escritor com sua escritura.

Debruçar nas 174 páginas, envolvidas por uma capa ocre de letras espelhadas, faz o relógio parar, o tempo repetir. A linguagem fluida, e muito bem construída, como é a marca do poeta-músico-trovador, conduz pela aparência simples aos intricados pensamentos e labirintos de aspirações.

Num rompente diria que a trama de Budapeste, que não intenciona mostrar a capital húngara, tão somente a aura de um cenário estrangeiro que se alterna com a conhecida paisagem carioca, para abrigar as incertezas de José Costa em ficar no Brasil, divertindo-se na própria língua, ou de partir para conhecer o magiar o transformará em Zsoze Kósta, revela o sentimento solitário de um escritor que ao narrar acontecimentos de vidas alheias descreve a própria existência; que ao emprestar suas palavras ao desejo e vaidade de um interlocutor que lhe contrata - para possuir uma voz que não lhe pertence – transforma-o em si mesmo e vice-versa. A mistura de identidades, a falta destas.

Entre passagens de um amor a o outro, de uma necessidade a outra, mostra a resignação, do escritor fantasma, pela fama do anonimato que lhe dá sustento e pela libertação que contém uma inquietação, embora dita por um autor inventado, que prefere o renome, comum a quem se esconde, a quem se promove e a quem só a escuta. A história revela que há um fio costurando todos a uma mesma vida que sobrevive de uma mixagem de palavras, fantasias e linguagens.

Aponta um fruto que é suculento de mastigar em qualquer tempo e que o sabor não se esvai por já ter sido mastigado, e nem importa por quem, mas porque o gosto continua a se perpetuar da fonte, para quem colhe ou cria, do ser humano que não se esgota em produzir palavras, inventar linguagens, em se comunicar para se distinguir, e em acreditar na sua natureza crescente, progressiva, que leva à evolução da espécie; fazendo-se imortal em páginas, páginas e páginas, não interessando muito quem seja o autor, pois sempre, na essência será ele mesmo – o Homem - e sua complexidade – razão, inteligência, sentimento e emoção humana – o que finalmente iguala ilustres e desconhecidos que buscam a si mesmos em suas histórias de vidas inventadas, assim como é.

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Romance Budapeste, Chico Buarque
Companhia das Letras 2003, 174 p.

20/09/2008

Resenha: A Identidade - Milan Kundera

A fronteira entre o precipício e a terra firme existe?




Por Solange Pereira Pinto




Fui digladiada na madrugada. É tão difícil confessar uma violência! Eu bem sei. Foi ontem que minha cunhada me disse: “expor as feridas é para poucos, pois ao divulgar nossas fragilidades mostramos aos outros que eles também as têm, ou poderão tê-las”. É? Perguntei. “Não somos o que somos e vivemos o que procuramos?” Crua ela rebateu: “não!”. Não compreendi a sua negativa, essa possibilidade de não existência ou de existir pelo não. Afinal, ser era ainda “absoluto”, uma identidade imutável. Naquele momento me preparei para o tombo. Ensangüentada, horas depois, senti o soco que levei muito antes. Cai de quatro. Múltipla. Inocente. Perdida.

Cinco horas, o sol estava por nascer. Confusa. Reflexiva. Atormentada. Passava meus olhos em pisca-alerta ao redor. Tentando reconhecer. Procurando fixar-me em algum ponto seguro. Não havia. Estava cara a cara com um outro eu possível. Assustador. Gostaria de ter outra identidade? Seria outro alguém desconhecido até por mim mesma? Teria prazer na sordidez? Fazia-me de vítima em lugar de algoz? Mataria? Fugiria? Tentaria morrer? Onde estava meu eu, ou melhor, onde eu me colocava?

Foi no momento do pânico que me identifique com Chantal e Jean-Marc. Lembrei-me agora que não foi só diante da agonia, mas também do prazer, que me fiz multiplicarem faces. Camaleoa de mim mesma. Pela sobrevivência. Pela conveniência. Pela vontade. Assim como Chantal produzi sonhos esquisitos e memoráveis. Da mesma forma que Jean-Marc esqueci-me de ditos passados, atos juvenis. Milan não me poupava. Lançava as palavras, os tabefes, e eu consentia. Por quê?

Muitas vezes o pesadelo se transpunha para o sonho, e vice-versa. Quantas vezes o grito virava silêncio, e este me ensurdecia? Eu também fugi da minha vida para tentar viver outra. Não como Chantal. Ela, sim, botou tarjas no passado. Evitando olhares. Por outro lado, Jean, seu marido, sabia da própria condição marginal e aceitava viver outros enquadramentos. Coisa difícil para mim aos 40.

Certo momento ele disse: “a única razão de ser da amizade é fornecer ao outro um espelho em que ele possa contemplar sua imagem de antigamente, a que, sem o eterno blábláblá das lembranças entre colegas, estaria apagada há muito tempo”. De fato. As rodas de reencontros eram círculos de memórias. Como brincadeira de tiro ao alvo em que não se pode mais retornar após marcado o centro ou feito o desacerto. Todos viram e anotaram. Ele contava com certa frieza. O que de certa forma não me incomodava. Eu também desamava pessoas e amigos como ele fizera. “O olhar do amor é o olhar do isolamento”.

Eu estava numa posição desconfortável (eterna sensação) e mesmo assim não saía de cena. Queria o desfecho. Por mais cruel, duro, espantoso que fosse, não largaria a angústia daquela hora. Precisava sentir a pulsão daquele incômodo para me livrar dele.

Chantal foi implacável. Em um ato misto de doçura, auto-complacência, dignidade, lucidez ou loucura, narrou o dia em que foi ao cemitério e parou diante do túmulo do filho que morrera aos cinco anos: “Meu querido, meu querido, não pense que não te amo ou que não te amei, é precisamente porque te amei que não poderia ter me tornado aquela que sou se você ainda estivesse aqui. É impossível ter um filho e desprezar o mundo como ele é, pois foi a este mundo que o destinamos. É por causa do filho que nos prendemos ao mundo, pensamos no seu futuro, participamos de bom grado de seus ruídos, de suas agitações, levamos a sério sua estupidez incurável. Com a sua morte, você me privou de prazer de estar com você, mas ao mesmo tempo me tornou livre. Livre diante do mundo que não amo. E, se posso me permitir não amá-lo, é porque você não está mais aqui. Meus pensamentos sombrios já não podem lhe trazer nenhuma maldição. Quero lhe dizer agora, tantos anos depois que você me deixou, que compreendi sua morte como um presente e que acabei aceitando esse terrível presente [...]”.

Eu não tinha palavras depois disso. Mas, eu guardava comigo a certeza de que jamais teria a ousadia e a coragem de Chantal, em fazer tal declaração, sem me sentir perpetuamente culpada e apedrejada pelos coros invisíveis. Ou teria? Já havia aqui embaralhado completamente a minha identidade. Eu infelizmente entendia perfeitamente a confissão de Chantal. O que me aguardava depois dessa compreensão? Não sabia.

A vontade de chorar e correr dali para um bosque imaginário, perfeito, paradisíaco, se entrelaçava com minha curiosidade de continuar a provar daquela trama pérfida que meus olhos testemunhavam. Meu fôlego se alternava entre afoito e paciente. A carne ardia. Milan continuava demolindo as estreitezas da razão e da lógica. Batia com mais força. Meu peito rasgava. Certamente eu não seria a mesma após compartilhar as histórias de Chantal e Jean-Marc. Também não, antes?

Fosse o que fosse. Por amor. Por morte. Por tédio. A vida dos dois se consumando para mim.Em mim. Eu neles. Entranhados naquela madrugada de quinta-feira. “Os homens não se viram mais para olhar para mim”, ela disparou. Enrubesceu. Entre o ciúme e a compaixão ele avaliou sua mulher. Estaria o envelhecimento ardendo, queimando, a ponto de destruir quem eram antes do espelho ou da consciência que paira como raio, feito clarão num instante, quando a juventude nos parece eterna? A mutação da identidade? Talvez fosse uma pista.

Abatia a auto-qualquer-coisa (traição, engano, verdade, ilusão). Em Chantal, Jean-Marc, em mim, provavelmenteem Milan. Ou em você. “A palavra vida é a rainha das palavras. A palavra-rainha rodeada de outras grandes palavras [...] contra o futuro defendia um passado”. A totalidade permeada pela imaginação, guia dos viventes no túnel do real e das irrealidades. Tateando a existência, qual venda usar?

“Se, antes desse único encontro a sós, ele a tivesse encontrado muitas vezes tal como ela era com os outros, teria reconhecido nela o ser amado?”. Os “ses” sem respostas atravessando nossas vistas para desespero ou conforto. A necessidade de uma inundação de olhares. Sedução, aventura, erotismo, transgressões, fugas, segredos desafiando outros quereres, digamos, mais “sólidos”. Vida de ambigüidades. De identidades. Eu perscrutava.

Enquanto as páginas mudavam de lado, eu derretia quadradinhos de chocolate no céu da boca. Um após outro. Os olhos atentos. A almaem dúvida. As pálpebras lubrificando as idéias. “Cada um de nós está imerso num mar de salivas que se misturam fazendo de nós uma única comunidade de salivas, uma única humanidade úmida e unida”, dizia Leroy. Ri dissolvendo mais um tabletinho na língua.

Os andarilhos exaustos da existência entrando e saindo da obscuridade. Assim somos? O passar ilógico do tempo, dos atos e suas confrontações. Assim vivemos? O sentido da vida que não se sabe imaginária, ficcional ou real nos expondo a explicações indisponíveis, desagradáveis ou não. “Por mais desprezível que seja o mundo, precisamos dele para poder conversar”. Ainda não era o fim, mas fazia pensar sobre os elos que nos unem à humanidade. As convenções. As provocações. A liberdade de escolha. A identidade.

Tornando eu, alma, corpo, consciência, esquecimento, destino, excitação, indiferença … encontrei o narrador, no final, questionando o que havia vivido até ali. “Qual é o momento preciso em que o real se transformou em irreal, a realidade em sonho? Onde era a fronteira? Onde é a fronteira?”.

É assim que Milan Kundera, em “A Identidade” (1998, Companhia das Letras), lança o leitor ao calabouço e ao mesmo tempo lhe entrega as chaves da cela. Paradoxo. Encantamento. “Tenho medo quando pisco o olho”. E você? Quem é antes e depois de piscar?



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12.11.2006