23/12/2008

Ler devia ser proibido

30/11/2008

Vintage Blues Trio no Café com Letras!




22/11/2008

Show da VBT ontem no Café

15/11/2008

O Onipresente

Crônica enviada por Joelma (a Capitu de Sampa)


Terra Magazine
Por José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)


De todos os poderes de Deus, um sempre foi o mais assustador para mim: o da onipresença. Isso na razão dos meus 12, 13 anos. Quer dizer que em qualquer lugar que eu estivesse, qualquer coisa que eu fizesse, Ele estaria olhando?! Mas isso era uma tremenda injustiça, além duma baita falta de educação.

Deus sabia, portanto, de todos pecados cometidos por mim. Eu era pedófilo: estava apaixonado por uma guria de 10 anos, a Suzi. Era invejoso: queria ser um outro cara, o Japa, que era mais forte, bom de bola e namorava a...Suzi. Era infiel, eu amava igualmente a Thaís, a Sandra, a professora de inglês, enfim tudo que usasse saias, exceto padres.

Ter uma namorada, portanto, era uma obsessão, e isso com um grau de exigência inversamente proporcional ao tamanho do meu nariz. Foi então que numa certa manhã, no recreio, comendo uma pastelina distraidamente, notei uma menina, morena, cabelos escuros, lisos e longos, lindíssima, olhando para mim. Será? Noutro dia, idem. No terceiro, trocamos um aceno. No quarto, trêmulo diante do olhar de Deus, eu roubei a jaqueta nova da minha irmã: iria à aula com o que tínhamos de melhor em casa, mesmo arriscando um estágio no inferno.

Passou uma semana e nada de papo, só acenos, de parte a parte. E mesmo assim, de longe. Mas eu flutuava pelos corredores, se me pedissem, daria autógrafos. Eu era o cara. De modo que quando o Rato me disse o que disse, eu demorei a compreender. Ele disse: "Fiquei sabendo que tu tá namorando a perebenta?". Perceba, amigo: eu nunca havia falado com ela, sequer me aproximado muito. Eram só acenos distantes na hora do recreio.

Mas então o Rato veio com a notícia aterradora, a guria tinha perebas no pescoço, no rosto, sei lá onde mais. A primeira coisa que eu fiz foi tirar a jaqueta; a segunda foi parar de devolver os acenos, o que provocou tristeza na guria, pude notar, que depois, nos outros dias, transformou-se em desprezo, pude sentir.

Novo semestre, férias de julho, o tempo é melhor do que mertiolate para certas feridas. Naquela época havia uma turma que todo garoto gostaria de freqüentar, mas só uns poucos eram os escolhidos. Eu, por exemplo, estava muito longe de ser um deles. Cabia a mim apenas o papel de espectador e olhe lá. Essa turma era liderada pelo Japa, já citado, e pelo Tony, o cara mais boa pinta do colégio. E o Tony não era só bonito. Com 14 anos, ele tinha uma moto cinqüentinha! Sendo o Tony, portanto, você poderia namorar quem quisesse. De modo que quando a notícia chegou aos meus ouvidos, demorei em ligar todos os pontos: "Tu já viu a morena que o Tony tá namorando? Cara é a guria mais gostosa do colégio".

Um dia depois eu vi o Tony, desfilando triunfante pelo recreio. Alexandre da Macedônia entrando pela primeira vez na rua principal da Pérsia. Estiquei o pescoço, queria ver a tal guria fenomenal que vinha de mão com ele. Estarrecido, com a sensação de que o chão tinha virado mingau de maisena, reuni algum restinho de força e perguntei para o Paulão, que, como eu, olhava a cena: "Mas ela não tinha um monte de perebas?". E ele disse: "Que nada, são só umas manchinhas no pescoço. Tri charmosas, por sinal".

Olhei para cima e Ele lá, como sempre. Só me sacando.

01/11/2008

Abertas as inscrições! Oficina de textos



O ateliê Ato Com Texto oferece neste final de ano uma oficina breve de ESCRITA CRIATIVA.

O objetivo principal é apresentar algumas técnicas de produção de textos para estimular o pensamento criativo e, assim, "desbloquear" o ato da escrita e da expressão verbal.


Com duração breve, e apenas uma vez por semana, a oficina servirá de aquecimento àqueles que pretendem melhorar o texto ou mesmo exercitar esta atividade.

As vagas são limitadas!

Fale conosco e garanta a sua participação!


Início: 10 de novembro (até 15/12)
Período: segundas-feiras, de 19h30 às 21h
Duração: 6 semanas

Informações: 9961-6971


02/10/2008

Safatle hoje no Café com Letras


Não perca nesta quinta-feira (2), a partir das 19h30, o lançamento e noite de autógrafos do livro Cinismo e falência da crítica (Boitempo editorial) escrito pelo filósofo Vladimir Safatle. O Café com Letras fica na 203 sul, bloco C loja 19.



A obra põe em pauta o capitalismo contemporâneo e baseado em estudos de Adorno, Freud, Hegel, Foucault e outros pensadores, o autor desenvolve uma perspectiva histórica do cinismo, desde os cínicos gregos que negavam a polis e desejavam a physis. O livro inclui também elementos da cultura brasileira mostrando, por exemplo, o carnaval como proposta à inversão da norma... veja mais....

Informações:
cafe.letras@gmail.com
(61) 3322-4070 / 3322-5070

01/10/2008

Música(lização) & Poesia com Anand Rao & Anabe Lopes

O músico e poeta Anand Rao e a poetisa Anabe Lopes apresentam-se nesta sexta, dia 3 de outubro, no Café com Letras, 203 Sul, às 21 h.

Anad Rao - 20 livros publicados e 03 CDs lançados - Compõe no palco, na frente de todos, e, simulltaneamente, executa ao violão melodias para textos, poemas e falas. A esta performance inovadora vem chamando MPBJazz. Conta que tal performance decorre de intensa busca por uma linguagem particular capaz de integrar poesia, música e momento. Compositor compulsivo, compõe com muita naturalidade. Promete fazer música para todos e com todos.

Anand Rao se apresenta em shows por todo o Brasil sempre na companhia de outro poeta. Para este show, Anand convidou Anabe Lopes.

Anabe Lopes - Há cinco anos participa do sarau da Câmara dos Deputados e há cerca de dois integra a Tribo das Artes, movimento de militância cultural que já existe há quase uma década. A Tribo das Artes realiza saraus mensais, sempre na segunda terça-feira do mês, no botequim Blue, na praça do DI em Taguatinga. Anabe participa ainda da Academia de Letras e Artes (ALA), composta por servidores do TCU e do legislativo e artistas da cidade. Representa a ALA na organização do sarau Quintas das Artes, em paraceria com o o Espaço Cultural Marcantonio Vilaça/TCU, evento patrocinado pelo Sindilegis. Ocupa a cadeira 36 da ACLAP - Academia Ceilandense de Letras e Artes Populares, cujo patrono é o poeta Francisoco Morojó (Pezão). Atualmente a ACLAP está sob a presidência da escritora Percília Júlia Toledo.

Musica(lização) & Poesia
Café com Letras, 203 Sul.
Couvert: R$ 5,00 (cinco reais)
Horário: 21 h
Data: 03 de outubro, sexta.

Contatos
Anand Rao: (61)99839873 e anandrao@terra.com.br
Anabe Lopes – (61) 99827161 e anabe.poesia@yahoo.com.br

20/09/2008

Resenha: A Identidade - Milan Kundera

A fronteira entre o precipício e a terra firme existe?




Por Solange Pereira Pinto




Fui digladiada na madrugada. É tão difícil confessar uma violência! Eu bem sei. Foi ontem que minha cunhada me disse: “expor as feridas é para poucos, pois ao divulgar nossas fragilidades mostramos aos outros que eles também as têm, ou poderão tê-las”. É? Perguntei. “Não somos o que somos e vivemos o que procuramos?” Crua ela rebateu: “não!”. Não compreendi a sua negativa, essa possibilidade de não existência ou de existir pelo não. Afinal, ser era ainda “absoluto”, uma identidade imutável. Naquele momento me preparei para o tombo. Ensangüentada, horas depois, senti o soco que levei muito antes. Cai de quatro. Múltipla. Inocente. Perdida.

Cinco horas, o sol estava por nascer. Confusa. Reflexiva. Atormentada. Passava meus olhos em pisca-alerta ao redor. Tentando reconhecer. Procurando fixar-me em algum ponto seguro. Não havia. Estava cara a cara com um outro eu possível. Assustador. Gostaria de ter outra identidade? Seria outro alguém desconhecido até por mim mesma? Teria prazer na sordidez? Fazia-me de vítima em lugar de algoz? Mataria? Fugiria? Tentaria morrer? Onde estava meu eu, ou melhor, onde eu me colocava?

Foi no momento do pânico que me identifique com Chantal e Jean-Marc. Lembrei-me agora que não foi só diante da agonia, mas também do prazer, que me fiz multiplicarem faces. Camaleoa de mim mesma. Pela sobrevivência. Pela conveniência. Pela vontade. Assim como Chantal produzi sonhos esquisitos e memoráveis. Da mesma forma que Jean-Marc esqueci-me de ditos passados, atos juvenis. Milan não me poupava. Lançava as palavras, os tabefes, e eu consentia. Por quê?

Muitas vezes o pesadelo se transpunha para o sonho, e vice-versa. Quantas vezes o grito virava silêncio, e este me ensurdecia? Eu também fugi da minha vida para tentar viver outra. Não como Chantal. Ela, sim, botou tarjas no passado. Evitando olhares. Por outro lado, Jean, seu marido, sabia da própria condição marginal e aceitava viver outros enquadramentos. Coisa difícil para mim aos 40.

Certo momento ele disse: “a única razão de ser da amizade é fornecer ao outro um espelho em que ele possa contemplar sua imagem de antigamente, a que, sem o eterno blábláblá das lembranças entre colegas, estaria apagada há muito tempo”. De fato. As rodas de reencontros eram círculos de memórias. Como brincadeira de tiro ao alvo em que não se pode mais retornar após marcado o centro ou feito o desacerto. Todos viram e anotaram. Ele contava com certa frieza. O que de certa forma não me incomodava. Eu também desamava pessoas e amigos como ele fizera. “O olhar do amor é o olhar do isolamento”.

Eu estava numa posição desconfortável (eterna sensação) e mesmo assim não saía de cena. Queria o desfecho. Por mais cruel, duro, espantoso que fosse, não largaria a angústia daquela hora. Precisava sentir a pulsão daquele incômodo para me livrar dele.

Chantal foi implacável. Em um ato misto de doçura, auto-complacência, dignidade, lucidez ou loucura, narrou o dia em que foi ao cemitério e parou diante do túmulo do filho que morrera aos cinco anos: “Meu querido, meu querido, não pense que não te amo ou que não te amei, é precisamente porque te amei que não poderia ter me tornado aquela que sou se você ainda estivesse aqui. É impossível ter um filho e desprezar o mundo como ele é, pois foi a este mundo que o destinamos. É por causa do filho que nos prendemos ao mundo, pensamos no seu futuro, participamos de bom grado de seus ruídos, de suas agitações, levamos a sério sua estupidez incurável. Com a sua morte, você me privou de prazer de estar com você, mas ao mesmo tempo me tornou livre. Livre diante do mundo que não amo. E, se posso me permitir não amá-lo, é porque você não está mais aqui. Meus pensamentos sombrios já não podem lhe trazer nenhuma maldição. Quero lhe dizer agora, tantos anos depois que você me deixou, que compreendi sua morte como um presente e que acabei aceitando esse terrível presente [...]”.

Eu não tinha palavras depois disso. Mas, eu guardava comigo a certeza de que jamais teria a ousadia e a coragem de Chantal, em fazer tal declaração, sem me sentir perpetuamente culpada e apedrejada pelos coros invisíveis. Ou teria? Já havia aqui embaralhado completamente a minha identidade. Eu infelizmente entendia perfeitamente a confissão de Chantal. O que me aguardava depois dessa compreensão? Não sabia.

A vontade de chorar e correr dali para um bosque imaginário, perfeito, paradisíaco, se entrelaçava com minha curiosidade de continuar a provar daquela trama pérfida que meus olhos testemunhavam. Meu fôlego se alternava entre afoito e paciente. A carne ardia. Milan continuava demolindo as estreitezas da razão e da lógica. Batia com mais força. Meu peito rasgava. Certamente eu não seria a mesma após compartilhar as histórias de Chantal e Jean-Marc. Também não, antes?

Fosse o que fosse. Por amor. Por morte. Por tédio. A vida dos dois se consumando para mim.Em mim. Eu neles. Entranhados naquela madrugada de quinta-feira. “Os homens não se viram mais para olhar para mim”, ela disparou. Enrubesceu. Entre o ciúme e a compaixão ele avaliou sua mulher. Estaria o envelhecimento ardendo, queimando, a ponto de destruir quem eram antes do espelho ou da consciência que paira como raio, feito clarão num instante, quando a juventude nos parece eterna? A mutação da identidade? Talvez fosse uma pista.

Abatia a auto-qualquer-coisa (traição, engano, verdade, ilusão). Em Chantal, Jean-Marc, em mim, provavelmenteem Milan. Ou em você. “A palavra vida é a rainha das palavras. A palavra-rainha rodeada de outras grandes palavras [...] contra o futuro defendia um passado”. A totalidade permeada pela imaginação, guia dos viventes no túnel do real e das irrealidades. Tateando a existência, qual venda usar?

“Se, antes desse único encontro a sós, ele a tivesse encontrado muitas vezes tal como ela era com os outros, teria reconhecido nela o ser amado?”. Os “ses” sem respostas atravessando nossas vistas para desespero ou conforto. A necessidade de uma inundação de olhares. Sedução, aventura, erotismo, transgressões, fugas, segredos desafiando outros quereres, digamos, mais “sólidos”. Vida de ambigüidades. De identidades. Eu perscrutava.

Enquanto as páginas mudavam de lado, eu derretia quadradinhos de chocolate no céu da boca. Um após outro. Os olhos atentos. A almaem dúvida. As pálpebras lubrificando as idéias. “Cada um de nós está imerso num mar de salivas que se misturam fazendo de nós uma única comunidade de salivas, uma única humanidade úmida e unida”, dizia Leroy. Ri dissolvendo mais um tabletinho na língua.

Os andarilhos exaustos da existência entrando e saindo da obscuridade. Assim somos? O passar ilógico do tempo, dos atos e suas confrontações. Assim vivemos? O sentido da vida que não se sabe imaginária, ficcional ou real nos expondo a explicações indisponíveis, desagradáveis ou não. “Por mais desprezível que seja o mundo, precisamos dele para poder conversar”. Ainda não era o fim, mas fazia pensar sobre os elos que nos unem à humanidade. As convenções. As provocações. A liberdade de escolha. A identidade.

Tornando eu, alma, corpo, consciência, esquecimento, destino, excitação, indiferença … encontrei o narrador, no final, questionando o que havia vivido até ali. “Qual é o momento preciso em que o real se transformou em irreal, a realidade em sonho? Onde era a fronteira? Onde é a fronteira?”.

É assim que Milan Kundera, em “A Identidade” (1998, Companhia das Letras), lança o leitor ao calabouço e ao mesmo tempo lhe entrega as chaves da cela. Paradoxo. Encantamento. “Tenho medo quando pisco o olho”. E você? Quem é antes e depois de piscar?



....
12.11.2006

14/09/2008

Cursos de comunicação, leitura, criatividade, escrita...

Quem nunca sentiu um friozinho no estômago ao ver uma folha em branco e ter literalmente "um branco"? E aquela dificuldade de ordenar as idéias para compor uma redação? Hum... Mas como fazer um resumo de um texto complicado? E se o problema for a diculdade de comunicação oral? Ah... Tem jeito? Tem sim!

Pesquisadora em Comunicação e desenvolvimento humano, a professora e escritora Solange Pereira Pinto tem se dedicado a formular projetos que desenvolvam a capacidade comunicativa dos indivíduos. Elaborando aulas (que ela chama de encontros) personalizadas, Solange tem obtido sucesso com seus alunos.

"Creio que o mais importante hoje seja derrubar os mitos que envolvem a comunicação. Por exemplo, vivemos numa cultura que passa a idéia de que quem não estuda não é inteligente, capaz, ou, ainda, de que quem é intelectual sabe de tudo. E não são verdades... Estamos na sociedade dos 'títulos acadêmicos', dos papéis, das visões estereótipadas, principalmente em Brasília que é uma cidade burocrata. Vivemos em um tempo de celebridades, mitos, ídolos e quem está fora se sente menos. Temos que valorizar outros aspectos da vida. Temos que 'democratizar' a auto-estima coletiva, popular", analisa.


Em seu ateliê colorido e cheio de imagens para desvendar, se abre outro mundo para quem quer se autodesenvolver. Quem quiser conhecer melhor o trabalho dessa educadora é só entrar em contato pelo email
sollpp@gmail.com ou visitar seu blog http://atocomtexto.blogspot.com/




Folder eletrônico, clique nele para ampliar a imagem:



Abaixo o hábito de ler!!

Por Solange Pereira Pinto (escritora, professora e arte-educadora)



A escola da minha filha tem um programa de leitura chamado ciranda do livro. O objetivo é que cada criança pegue uma obra para ler no fim de semana e faça, na apostila encadernada em espiral, uma atividade pré-determinada (desenhar uma passagem, escolher um personagem favorito, ilustrar a idéia principal, fazer um breve resumo etc.).

Imagino que nem todos os alunos façam a tarefa de bom grado. No início a escola tentou uma competição: a criança que pegasse mais livros na biblioteca ganharia um prêmio ao término do período X. Minha filha logo chiou: “mamãe, assim não vale. Tá muito chata essa história de quem lê mais. Tem gente que só pega livrinho fininho e com muita figura pra ler rápido e pegar outro. Eu que escolhi pelo título, por que achei interessante a história, vou perder. O meu livro é muito mais grosso que os outros!”, choramingou.

Tinha ela razão. Vencer a competição era o objetivo das crianças sob o pretexto da escola de formar o hábito da leitura e quiçá cidadãos do futuro. Nesse meio tempo, crítica daqui, chororô acolá, ficou difícil para a professora lidar com a manobra “pedagógica”, deslindada pela pequena estudante.




O projeto competitivo saiu de cena e a apostila em espiral continuou seu trajeto, às sextas-feiras, mochila adentro; só que agora sem a pressão de se ser o primeiro lugar no ranking de “leituras lidas”. Algumas crianças ficaram aliviadas. Alguns pais também. Ufa!

Chegado o dia de mais uma escolha, minha menina, que se chama Ana (Luísa) optou por pegar um livro chamado Ana e Ana, segundo as palavras dela “achei pela capa que podia ser interessante”. E era. Aliás, é!

O livro de Célia Godoy, ilustrado divinamente por Fé, narra a história das gêmeas Ana Carolina e Ana Beatriz, que idênticas na aparência tentavam se distinguir por cores, roupas, adereços, ainda que “por dentro” fossem bem diferentes nos gostos e afinidades com o mundo. Cresceram e cada uma tomou um rumo, até que...

Até que eu parei para pensar se a leitura é um “hábito-ato” possível de se formar em alguém. Sendo professora há algum tempo e exatamente na área de produção de textos, leitura e interpretação, recordei das principais dificuldades e justificativas dos meus alunos quando perguntados sobre o tal, difundido, alardeado: hábito de ler!

Em geral, se apontam desconcentração, sono, preguiça, falta de exemplos familiares, ausência de livros em casa, dificuldade de entendimento, cansaço, visão embaralhada, e, principalmente, falta de tempo! Questionados sobre este último item, respondem: “ah, professora tem muita coisa melhor a fazer do que ler, como ver TV, praticar esportes, sexo, passear, navegar pela internet...”.

“– Mas céus! Vocês não gostam de ler nada?”, re-interrogo.
“– Também não é assim. A gente lê sobre o que gosta ou sobre o que precisa”.

Se tempo é uma questão de prioridade, e nele a gente ocupa primeiro o que dá prazer ou necessita, aonde entra o esforço pedagógico de formar o hábito de ler? Creio que na vala comum.

Diz o companheiro Houaiss que hábito é “maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente; costume, regra, modo, maneira permanente ou freqüente, regular ou esperada de agir, sentir, comportar-se; mania”.

Ora, formar o hábito de ler para quê?

Em certa medida, quem tem uma formação escolar considerada razoável (sei lá o que isso significa) lê o que lhe atrai. Jornais, almanaques, cadernos de esporte, revistas semanais, publicações de fofocas etc, estão pelas esquinas e bem amassadas, indicando que mãos e olhos passaram por ali.

E daí?

Nada!

O hábito de ler, melhor formulando, a prática de ler não significa em essência nada. O costume de ler pode ser um desábito de adquirir conhecimento. Entrar no piloto automático da leitura não traz por si só transformação.

Se ler é um dos caminhos para se chegar ao conhecimento de determinado fenômeno, idéia, verdade, ler por ler é no máximo chegar à aquisição de dados brutos e informações superficiais, massificadas, deglutidas por seus autores para todos.

Hoje deveríamos por em pauta, conclamar, não o desgastado hábito de ler, mas sim o hábito de pensar, o hábito de querer saber, o hábito de ser curioso. Se os próprios considerados – pelos professores – não-leitores admitem ler o que lhes interessa, óbvio seria despertar antes a vontade de conhecer. Ler, por hábito, deveria deixar de ser regra de conduta apregoada pelas escolas. Transformar o pensamento e ampliá-lo por desejo, deveria ser a etiqueta.

Ler é mera conseqüência. A causa é querer sair do lugar-comum, voar sem tirar o pé do chão, pensar para existir... Meu hábito maior é “Ser” e por isso eu leio muito. Dessa forma, vou me desabituando de mim para me habituar às minhas releituras...






(Tirinha criada especialmente para este texto por minha amiga Creisi - veja outras tirinhas aqui)